domingo, 20 de setembro de 2009
Um alguém... o meu quem.
Eu encontrei um certo alguém...
Aparentemente? Muito atraente. Um sorriso cativante, barbinha falhada, brinco na orelha, cabelo bagunçado, estilo próprio. Esse foi o contato surdo, de vista. Quando se aproximou, vi que a atração viria de outros sentidos: auditivo, por exemplo. Voz macia, penetrante, idéias e ideais confortantes, discurso atrativo. Gestual. Ele fala com as mãos, com os olhos, com o corpo. Mais um atrativo! Mas isso são coisas que qualquer um(A) poderia ter observado, como sei que fizeram.
Eu conheci um certo alguém...
Prazerosamente ouvinte, participativo, cuidadoso, amoroso, atraente (novamente). Alguém que fez questão de participar do dia-a-dia. Alguém que cativou pela sinceridade, pelo modo absurdamente irreverente que vivia certos sentimentos e pelo modo responsável e dedicado que tinha com outras partes de sua vida. Alguém que abriu uma porta de um mundo mais crítico, mais participativo. Teve e tem uma grande influência sobre meu modo de ver certas coisas, como o movimento em que estamos inseridos. Conheci um conselheiro amoroso e um amoroso desaconselhado. Um alguém por quem eu gritava sempre que me sentia perdida. E o melhor? Era atendida.
Eu me apaixonei por um certo alguém...
Que é envolventemente maravilhoso. Que exerce sobre mim um êcstasy metaforicamente incomum! Que nutre em mim uma atração incontrolável e incondicional. Atua sobre o meu corpo como um campo de força atrativo, que age repulsando qualquer sentimento de negação ou de proibição: o proibido é ficar longe. Tem magnetismo. Meu corpo pede o toque de suas mãos e minhas pernas se dobram a qualquer desejo. A respiração economiza ar e enche-se de gemidos tórridos. Todos os meus poros liberam prazer. Lágrimas, suor, tremedeiras, gozo. A milimetrica expressão corporal é reconhecida por ele. Como se ele fosse o artesão responsável por cada curva e dobra existente em mim.
Eu me entreguei a um certo alguém...
Que não desistiu de me conquistar por (quase) nenhum instante. Que sofreu por mim e comigo por minha covardia de jogar tudo pro ar e obedecer ao bambear das minhas pernas e ao sambar do meu coração. Me entreguei quando me dei conta de que nunca seria completa sem ele. Me entreguei quando minha boca suplicou-lhe um ultimo beijo, quando suas mãos me acariciaram e eu não consegui resistir. Me entreguei quando olhei no fundo dos seus olhos e quis ser sua como nunca havia sido de outro alguém. Me entreguei quando o senti dentro de mim em perfeita sintonia. Quando meu corpo respondeu embaixo do dele, quando todo o resto se apagou de mim e quando eu me apaguei por ele. Me entreguei quando vi em seus gestos, toques, olhares, sussurros que ele estava por mim mais do que por si só. Me entreguei quando senti ao lado dele, me senti, pela primeira vez, plena.
Eu amo um certo alguém...
Que me ama, como sei que nunca serei amada. Que me entende, quando nem eu mesma o faço. Que me enlaça em sentimentos de ternura, de afago, de entrega. Que me ouve, que me fala, que me faz calar. Eu amo um alguém que decora meus gestos, meus suspiros e meus gemidos. Um alguém por quem a minha lingua chama, por quem minha pele se arrepia, meus olhos se fecham e meu corpo estremece. Eu amo um alguém que é cheio de taras e manias. Que faz com que eu me sinta feliz todos os instantes em que está por perto e por longe. Eu amo um alguém que as vezes perde a paciência, mas que logo em seguida, me abraça e me faz um carinho. Eu amo um alguém que não tem problemas em deixar o orgulho de lado e tentar me convencer de que eu errei. Eu amo um alguém que canta no meu pé do ouvido, que não desiste de tirar de mim todos os meus sorrisos. Um alguém que me mima e não tem medo por isso. Um alguém que trouxe tanta paz aos meus dias, tanto amor aos meus momentos, tanto prazer aos meus instantes. Eu amo um alguém...eu amo o MEU alguém... eu amo, amo a quem. Amo um certo alguém que me fez ser quem sou.
Eu desejo, meu alguém, meu único quem...
Quero que nossa vida a dois seja plena, seja absoluta, seja inquietante. Quero que tenhamos desavenças, para darmos valor aos momentos de sintonização. Quero que você se arrependa, por um instante, para que em todos os outros você se entregue por completo a nossa escolha. Quero ser unica para você e que você seja unico para mim. Quero que os gritos sejam abafados por beijos, que o silencio seja quebrado por risadas, que nossa casa seja nosso refúgio, sendo o primeiro lugar para o qual queiramos voltar o mais rapido possível. Quero que você quebre xícaras e nós riamos muito disto. Quero café na cama, jantar na mesa e sexo no sofá. Quero sonos interrompidos, palavras de amor e bilhetes escondidos. Quero surpresa numa sexta esgotante de trabalho, quero flores, pássaros, todas as testemunhas possíveis do nosso amor. Quero que escrevam sobre nós, sobre como fomos felizes e como fomos amantes. Quero música pros nossos dias. Quero amor pra nossa vida toda. :)
20 de setembro de 2009.
sábado, 22 de agosto de 2009
'C'est comme si tout était hors de propos.'

As coisas estão bagunçadas.
A cama esticou,
O lenço de papel acabou.
O café da xícara está amargurado
E o meu relógio parece estar quebrado.
O vento continua a soprar,
Mas minhas lágrimas, ele não consegue secar.
O disco arranhado vive a tocar,
E o meu coração, partido, a te procurar.
Quero encontrar teus passos,
seguir teu som,
sugar teu cheiro,
trocar o meu batom.
Quero aconchego, quero flor,
luz, melodia,
saltos e lagos,
quero morrer de teu amor.
E quando a sanidade voltar,
quero contar ao teu lado,
sem medo de alucinar,
que sem ti, eu me nego a continuar...
Volta... para que as coisas retomem os seus lugares.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Perto e Distante

Hoje, conversando com um velho-amigo-novo¹, recebi um belissimo poema de Guimarães Rosa:
O correr da vida embrulha tudo
A vida é assim: esquenat e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desenquieta.
O que ela quer da gente é coragem
Isso porque falávamos das injúrias da vida, que nos afasta das pessoas que amamos e o pior, do papel passivo que fazemos frente a isto. Aceitamos tudo. Nos acostumamos com tudo. As vezes eu detesto esse modo de adaptação que é inerente ao ser.
Porque me acostumar com a saudade?
Com a dor?
Com a perda?
Porque me acostumar a não ter perto e ter distante?
E isso me remonta a turma inesquecivel de 2005.
Onde fomos parar?...
Estamos construindo nossas estradas, só espero que elas tenham curvas que se encontrem.
A vida que une é a mesma que separa.
____x
¹ Fran Yan Coelho Tavares.
Hoje? Estudante de Ciências Sociais da UFC.
Ontem? Meu confidente amigo-urso!
Variações.. de tempo, espaço e condição....
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Carona.

[Na estrada]
Mulher: Sr Caminhoneiro, por favor, me dê uma carona?
Caminhoneiro: Até onde, sua moça?
Mulher: O mais perto que o senhor puder do meu amado!
Caminhoneiro: Mas eu nem sei onde é! E se eu passar longe?
Mulher: Tem problema não seu moço, o importante é diminuir essa distância o máximo que eu puder!
Caminhoneiro: E se o rapaz num tiver lá, moça! A senhora vai sair assim?
Mulher: Ele há de estar! Se não estiver, agora mesmo ta indo pra lá!
Caminhoneiro: E como a senhora pode afirmar uma coisa dessas?
Mulher: É simples... Meu coração ta batendo tão forte, mas tão forte, que sei que ele pode ouvir. E ele há de saber todo amor que tenho por ele e tudo que sou capaz de fazer para não tê-lo tão longe de meus braços!
Caminhoneiro: Ta.. suba ai dona moça! E aperte os cintos... porque se o amor da senhora for grande assim, essa estrada vai ser pequena por hoje como nunca me foi na vida!
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Ausência
Ao amor da minha vida.
Não estarei perto de ti nos dias que seguirão, mas faça-me um favor, amado meu...
Ao despertar-te, cuida para que o teu primeiro pensar seja meu, segure firme o leito vazio que outrora nos aconchegou. Ao me veres nua, cubra-me com teu braço, nina-me, embaraçando-me os cabelos, lembrando-nos que podemos nos afagar mais cinco minutinhos.
Brigues comigo, silenciosamente, antes de cada refeição.Graciosamente, espalhe meu toque junto ao teu em todos os cômodos: livros, discos.
Assegura-te de não ouvirdes músicas sem mandá-las a mim por teu pensamento.
Sorria e traga vida aos teus dias tristonhos, como trouxestes quando perto de ti eu estava.
Quando fores deitar, deixes meu lado da cama pronto e não me deixes sentir frio.
E quando a ausência quiser gritar, varre as cinzas do teu cigarro para fora, bebe o amargo do café que deixei sobre a mesa, a fim de beberes as gotículas de saliva que descansam nas bordas da xícara esquecida.
Corra atrás de cada suspiro que dei, de cada lágrima silenciosa que derramei sob o teu peito, colha dos sussurros e soluços das nossas noites de amor em magna plenitude e respire fundo.
Tendo isto, aguarda-me com eufórica loucura, para que quando eu retorne cambaleante de saudades, possa perceba-te completamente embriagado de minha ausência.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
O amor me chamou de flor.
... e disse que eu era alguém pra vida inteira.
"Esse é o problema com a saudade: ou ela vira rotina e todo mundo enlouquece ou ela vira cobrança e as pessoas tem que se ver com maior frequencia" D.A.
Eu? Ah, perdi o medo de amar incondicionalmente.
"Esse é o problema com a saudade: ou ela vira rotina e todo mundo enlouquece ou ela vira cobrança e as pessoas tem que se ver com maior frequencia" D.A.
Eu? Ah, perdi o medo de amar incondicionalmente.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
A Residência Universitária e a dubialidade de um modo de ser, de estar e de viver.
A Residência Universitária e a dubialidade de um modo de ser, de estar e de viver.
Depois de algum tempo passado aqui, na Residência, eu percebi que existem dois jeitos de se entrar neste mundo fantástico de SER RESIDENTE: Morando e Vivendo (Morar e Viver).
A primeira opção é absolutamente e irrevogavelmente mais fácil. Fácil porque você vai traçar uma relação parasitária, onde você usurfrui de onde MORA e não contribui para que nada melhore, para que nada aconteça. É uma relação isenta de responsabilidade e de certa forma de cobranças. Você não vai precisar ter uma conduta alinhada com os principios ou com a moral, você vai poder ser o que quiser porque nao vai expor sua vida, seus hábitos, suas atividades. Vai ser aquele tipico residente que antes de entrar, tentou agradar a todos: desde as assistentes sociais que fazem a seleção a coordenação da sua pretensa casa. Afinal... todos devem pensar que você é uma pessoa bacana, sem problemas psicológicos aparentes (e daí que um dia a sua verdadeira face vai ficar aparente? A vaga já é sua! Uhul!) para facilitar a sua entrada. Vai ser aquele tipo de residente que não faz muita questão de se envolver com as outras residentes “Pra que? Isso aqui é temporário! Eu tenho meus amigos da cidade de onde eu vim, da faculdade.. enfim, não preciso de ninguém.. a não ser que falte sal ou fósforo no meu quarto! Ai necessariamente eu teria que dar um sorriso maior pra minha vizinha! Espero que não falte”. Nenhum homem é uma ilha. E como tal, onde chegamos temos sim a necessidade e a pretensão de criar laços! É exclusivo da raça humana, acostume-se com isso. Vai ser aquele tipo de residente que chega da aula, ouve barulhos vibrantes do quarto vizinho e questiona: - nossa! Que egoistas, não podem fazer menos barulho? Tô cansada, tenho que estudar. Será mesmo que a egoista aqui é a vizinha? Ou o problema é que EU não tenho motivos pra chegar em casa tão feliz, afinal essa nem é a minha casa!! Bom. Vai ser aquele tipo de residente que se contenta em pegar o café da manhã sem nem cumprimentar a BEM FEITORA cozinheira do café, que nunca atrasa porque sabe que algumas tem aula as 7horas da manhã. Mas e daí? É obrigação dela! Ela é paga pra isso... e eu nem gosto muito dessa comida mesmo! Se faltasse eu nem ligaria tanto! (Faça o teste de levar o seu prato de comida pra quem precisa.. é um banquete! Mas quem se importa não é?). Vai ser aquele tipo de residente que sempre passa pelo mural de informações, lê todas elas.. mas se limita a só se manter informada, como se fosse um telejornal da Sibéria que fala de uma realidade bem distante e distinta da sua. (Pra que eu quero saber que o técnico do computador coletivo vem aqui? Eu ja tenho o meu mesmo! E daí que vai ter assembléia? Esse povo parece que não tem o que fazer mesmo! Ficar discutindo sempre as mesmas coisas... [jamais pensa se as coisas estão sendo rediscutidas é porque nao foram resolvidas] Volei aos sabados? É o unico dia que eu tenho pra dormir um pouco mais e lavar a roupa.. lá tenho tempo pra isso.. e logo com essas meninas..). Vai ser aquele tipo de residente que pré-julga. “Nao fui com a cara de fulana, de beltrana.. olha o jeito que aquela se veste? E o namorado da outra?” sem dar a chance para si e para que a fulana se desfaçam desse julgamento (podemos estar perdendo uma amizade tremenda)! O tipo de residente, enfim, que não se mistura. Que tem um quarto que virará seu mundo e nada mais, nem nada mais ninguém: portas fechadas e restritas. Vai ver quartos unidos comemorando o aniversário surpresa de alguém e vão se perguntar porque ninguém lembrou o seu. O tipo de residente que não cria laços, que não deixa mãos nas paredes, rachadura no chão ou história nas tintas e tijolos.
Agora, se você escolher a segunda opção eu garanto: vai ter horas (e muitas horas) que você vai querer pular fora e escolher a primeira opção. Mas, aqui é que nem Matrix: ou toma a pílula azul ou a vermelha. E a partir disto uma nova realidade tornar-se-á visível e palpável pra você, vindo juntamente com toda responsabilidade por esse privilegiado conhecimento: o além das aparencias. Mas também garanto que será a coisa mais difícil e gratificante, apesar de nem sempre reconhecida, nem pelas que optaram pela situaçao 1 e nem tão pouco por você mesma. Uma opção que vai trazer sofrimento, noites perdidas de sono, de estudo, de aulas. Falar pro professor “tenho uma reunião na reitoria pra resolver coisas...” vai virar quase um ditado popular! As vezes o próprio professor já vai assinar seu nome na lista por você! Isso quando um deles não te procurar e dizer ‘Isso não tem futuro, você tinha tudo pra estar engajada num projeto de pesquisa..’ E quem disse que não sou capaz de fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Como sabe ele que isso não tem futuro? Ele ja foi residente? Ja precisou carregar o peso de mais de 50 moradores nas costas? Ja precisou chegar em casa mais de 22hrs da noite, doida pra tomar um banho e não ter água? Ja teve que virar a noite estudando e na hora que mais estava rendendo a luz apagou porque deu um curto na casa? Aposto que não. Então não me venham dizer o que vale ou não a pena! As vezes acho que residente tinha que sair com 2 certificados e diplomas: Um de vida acadêmica e outro de vida plural Afinal, o que não aprendermos na residência? Alimentação (poderiamos até ser consideradas feirantes!), Hierarquias, História, Movimentos Sociais e Estudantis, Reuniões, toooodo tipo de Oficios, Memorandos, Solicitações, Relações Humanas e Públicas, Terapias em grupo e individuais, etc, etc, etc.
Se você optou pela segunda opção do nosso cardápio de boas vindas, prepare-se: você será vítima das maiores injustiças e injúrias dentro do seu próprio ambiente de trabalho! Ah, e não se assuste se algum dos poderosos das Instâncias Deliberativas gritar com você porque fazem 5 meses que você solicita lâmpadas para a sala de estudo e elas nunca apareceram! Você está entrando num ramo que não tem volta. Se decidir lutar pelo ESPAÇO e pelo LAR que você VIVE, decida de corpo, alma e coração porque não é possível fazer com que as coisas aconteçam sem esses três componentes. Você entrará num mundo de conflitos. E o maior dele é: Largo a casa ou tranco e aguento reprovação se eu continuar assim? Eis a questão. Eis a questão que rondará a sua cabeça quase todos os dias da sua estadia. As vezes temos que abrir mão de muitas coisas para dar prioridade às coisas da residência. Cabe a nós ponderarmos também para não comprometermos o verdadeiro motivo pelo qual saimos de casa e deixamos nossas familias. Mas eu volto a argumentar que, se mais gente escolhesse a opção dois, a opção um seria mais esvaziada e sem filas (que mais parecem do SUS e do RU) e teriamos menos gente frustradas e sobrecarregadas. Se a rainha, o rei, o bispo e as torres também trabalham, os peões não morrem logo. É um privilégio cheio de sacrifícios: o de ver além do que se enxerga. É saber que não se pode habitar uma casa dessas que transpira história e sua deterioramento sem incorporá-la ao seu ser. É não conseguir ver uma infiltração que não atinge o seu banheiro, mas atinge o da minha vizinha e achar SIM que isso é problema MEU também!!! Um dia o vazamento pode chegar no meu banheiro num dia de uma entrevista de emprego que eu esperava há anos. Entende? É uma ação e reação, uma simultaneidade de precisões, onde a decisão é sua: entrar ou observar. É comum você optar pelo observar, e instigar e estimular o trabalho das que entraram. É como ver um grupo de pessoas adentrando uma caverna cheia de obstáculos, ficar do lado de fora e dizer: força! Você consegue! Quando você sabe que é da caverna que vai sair o seu sustento. E daí? Tem quem faça por mim, porque vou fazer? É um belo raciocínio e se as pessoas da 2 opção também pensassem assim (não conta pra elas) seria um CAOS.
Concluindo... é fácil encontrar uma casa pintada, organizada, com quartos disponíveis e tudo funcionando (mais ou menos bem). É muito fácil observar o trabalho daquelas que estão trabalhando dobrado porque EU nao estou fazendo a minha parte. É fácil julgar quem dá a cara a tapa enquanto eu sou a primeira a tapear. É fácil segurar o meu mundo(quarto) seguro enquanto a casa desaba. É fácil ter móveis, aparelhos dentro do meu quarto e ignorar que outras pessoas que não tem condições e dependem do coletivo estão sem. É fácil entrar na casa. É fácil ter onde morar, o que comer a qualquer hora que eu quiser. É fácil se isentar de uma luta que também é minha a prova disto é que você não teria nem onde concorrer uma vaga se outras não tivessem lutado. É fácil morar na residência, é muito fácil. Difícil é SER RESIDENTE e VIVER RESIDENTE. Difícil é se responsabilizar pela sua decisão de VIVER na e para a residência e o mais difícil é se tornar responsável pela decisão de alguém que em momento algum se responsabilizou pela sua.
Depois de algum tempo passado aqui, na Residência, eu percebi que existem dois jeitos de se entrar neste mundo fantástico de SER RESIDENTE: Morando e Vivendo (Morar e Viver).
A primeira opção é absolutamente e irrevogavelmente mais fácil. Fácil porque você vai traçar uma relação parasitária, onde você usurfrui de onde MORA e não contribui para que nada melhore, para que nada aconteça. É uma relação isenta de responsabilidade e de certa forma de cobranças. Você não vai precisar ter uma conduta alinhada com os principios ou com a moral, você vai poder ser o que quiser porque nao vai expor sua vida, seus hábitos, suas atividades. Vai ser aquele tipico residente que antes de entrar, tentou agradar a todos: desde as assistentes sociais que fazem a seleção a coordenação da sua pretensa casa. Afinal... todos devem pensar que você é uma pessoa bacana, sem problemas psicológicos aparentes (e daí que um dia a sua verdadeira face vai ficar aparente? A vaga já é sua! Uhul!) para facilitar a sua entrada. Vai ser aquele tipo de residente que não faz muita questão de se envolver com as outras residentes “Pra que? Isso aqui é temporário! Eu tenho meus amigos da cidade de onde eu vim, da faculdade.. enfim, não preciso de ninguém.. a não ser que falte sal ou fósforo no meu quarto! Ai necessariamente eu teria que dar um sorriso maior pra minha vizinha! Espero que não falte”. Nenhum homem é uma ilha. E como tal, onde chegamos temos sim a necessidade e a pretensão de criar laços! É exclusivo da raça humana, acostume-se com isso. Vai ser aquele tipo de residente que chega da aula, ouve barulhos vibrantes do quarto vizinho e questiona: - nossa! Que egoistas, não podem fazer menos barulho? Tô cansada, tenho que estudar. Será mesmo que a egoista aqui é a vizinha? Ou o problema é que EU não tenho motivos pra chegar em casa tão feliz, afinal essa nem é a minha casa!! Bom. Vai ser aquele tipo de residente que se contenta em pegar o café da manhã sem nem cumprimentar a BEM FEITORA cozinheira do café, que nunca atrasa porque sabe que algumas tem aula as 7horas da manhã. Mas e daí? É obrigação dela! Ela é paga pra isso... e eu nem gosto muito dessa comida mesmo! Se faltasse eu nem ligaria tanto! (Faça o teste de levar o seu prato de comida pra quem precisa.. é um banquete! Mas quem se importa não é?). Vai ser aquele tipo de residente que sempre passa pelo mural de informações, lê todas elas.. mas se limita a só se manter informada, como se fosse um telejornal da Sibéria que fala de uma realidade bem distante e distinta da sua. (Pra que eu quero saber que o técnico do computador coletivo vem aqui? Eu ja tenho o meu mesmo! E daí que vai ter assembléia? Esse povo parece que não tem o que fazer mesmo! Ficar discutindo sempre as mesmas coisas... [jamais pensa se as coisas estão sendo rediscutidas é porque nao foram resolvidas] Volei aos sabados? É o unico dia que eu tenho pra dormir um pouco mais e lavar a roupa.. lá tenho tempo pra isso.. e logo com essas meninas..). Vai ser aquele tipo de residente que pré-julga. “Nao fui com a cara de fulana, de beltrana.. olha o jeito que aquela se veste? E o namorado da outra?” sem dar a chance para si e para que a fulana se desfaçam desse julgamento (podemos estar perdendo uma amizade tremenda)! O tipo de residente, enfim, que não se mistura. Que tem um quarto que virará seu mundo e nada mais, nem nada mais ninguém: portas fechadas e restritas. Vai ver quartos unidos comemorando o aniversário surpresa de alguém e vão se perguntar porque ninguém lembrou o seu. O tipo de residente que não cria laços, que não deixa mãos nas paredes, rachadura no chão ou história nas tintas e tijolos.
Agora, se você escolher a segunda opção eu garanto: vai ter horas (e muitas horas) que você vai querer pular fora e escolher a primeira opção. Mas, aqui é que nem Matrix: ou toma a pílula azul ou a vermelha. E a partir disto uma nova realidade tornar-se-á visível e palpável pra você, vindo juntamente com toda responsabilidade por esse privilegiado conhecimento: o além das aparencias. Mas também garanto que será a coisa mais difícil e gratificante, apesar de nem sempre reconhecida, nem pelas que optaram pela situaçao 1 e nem tão pouco por você mesma. Uma opção que vai trazer sofrimento, noites perdidas de sono, de estudo, de aulas. Falar pro professor “tenho uma reunião na reitoria pra resolver coisas...” vai virar quase um ditado popular! As vezes o próprio professor já vai assinar seu nome na lista por você! Isso quando um deles não te procurar e dizer ‘Isso não tem futuro, você tinha tudo pra estar engajada num projeto de pesquisa..’ E quem disse que não sou capaz de fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Como sabe ele que isso não tem futuro? Ele ja foi residente? Ja precisou carregar o peso de mais de 50 moradores nas costas? Ja precisou chegar em casa mais de 22hrs da noite, doida pra tomar um banho e não ter água? Ja teve que virar a noite estudando e na hora que mais estava rendendo a luz apagou porque deu um curto na casa? Aposto que não. Então não me venham dizer o que vale ou não a pena! As vezes acho que residente tinha que sair com 2 certificados e diplomas: Um de vida acadêmica e outro de vida plural Afinal, o que não aprendermos na residência? Alimentação (poderiamos até ser consideradas feirantes!), Hierarquias, História, Movimentos Sociais e Estudantis, Reuniões, toooodo tipo de Oficios, Memorandos, Solicitações, Relações Humanas e Públicas, Terapias em grupo e individuais, etc, etc, etc.
Se você optou pela segunda opção do nosso cardápio de boas vindas, prepare-se: você será vítima das maiores injustiças e injúrias dentro do seu próprio ambiente de trabalho! Ah, e não se assuste se algum dos poderosos das Instâncias Deliberativas gritar com você porque fazem 5 meses que você solicita lâmpadas para a sala de estudo e elas nunca apareceram! Você está entrando num ramo que não tem volta. Se decidir lutar pelo ESPAÇO e pelo LAR que você VIVE, decida de corpo, alma e coração porque não é possível fazer com que as coisas aconteçam sem esses três componentes. Você entrará num mundo de conflitos. E o maior dele é: Largo a casa ou tranco e aguento reprovação se eu continuar assim? Eis a questão. Eis a questão que rondará a sua cabeça quase todos os dias da sua estadia. As vezes temos que abrir mão de muitas coisas para dar prioridade às coisas da residência. Cabe a nós ponderarmos também para não comprometermos o verdadeiro motivo pelo qual saimos de casa e deixamos nossas familias. Mas eu volto a argumentar que, se mais gente escolhesse a opção dois, a opção um seria mais esvaziada e sem filas (que mais parecem do SUS e do RU) e teriamos menos gente frustradas e sobrecarregadas. Se a rainha, o rei, o bispo e as torres também trabalham, os peões não morrem logo. É um privilégio cheio de sacrifícios: o de ver além do que se enxerga. É saber que não se pode habitar uma casa dessas que transpira história e sua deterioramento sem incorporá-la ao seu ser. É não conseguir ver uma infiltração que não atinge o seu banheiro, mas atinge o da minha vizinha e achar SIM que isso é problema MEU também!!! Um dia o vazamento pode chegar no meu banheiro num dia de uma entrevista de emprego que eu esperava há anos. Entende? É uma ação e reação, uma simultaneidade de precisões, onde a decisão é sua: entrar ou observar. É comum você optar pelo observar, e instigar e estimular o trabalho das que entraram. É como ver um grupo de pessoas adentrando uma caverna cheia de obstáculos, ficar do lado de fora e dizer: força! Você consegue! Quando você sabe que é da caverna que vai sair o seu sustento. E daí? Tem quem faça por mim, porque vou fazer? É um belo raciocínio e se as pessoas da 2 opção também pensassem assim (não conta pra elas) seria um CAOS.
Concluindo... é fácil encontrar uma casa pintada, organizada, com quartos disponíveis e tudo funcionando (mais ou menos bem). É muito fácil observar o trabalho daquelas que estão trabalhando dobrado porque EU nao estou fazendo a minha parte. É fácil julgar quem dá a cara a tapa enquanto eu sou a primeira a tapear. É fácil segurar o meu mundo(quarto) seguro enquanto a casa desaba. É fácil ter móveis, aparelhos dentro do meu quarto e ignorar que outras pessoas que não tem condições e dependem do coletivo estão sem. É fácil entrar na casa. É fácil ter onde morar, o que comer a qualquer hora que eu quiser. É fácil se isentar de uma luta que também é minha a prova disto é que você não teria nem onde concorrer uma vaga se outras não tivessem lutado. É fácil morar na residência, é muito fácil. Difícil é SER RESIDENTE e VIVER RESIDENTE. Difícil é se responsabilizar pela sua decisão de VIVER na e para a residência e o mais difícil é se tornar responsável pela decisão de alguém que em momento algum se responsabilizou pela sua.
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